CARTÃO DEVE ACABAR ANTES DE DINHEIRO, DIZ INSTITUTO BRITÂNICO

Apesar de muita gente imaginar um futuro sem dinheiro físico, quem corre risco ainda maior de extinção, na verdade, são os cartões de crédito. As pesquisas sobre meios de pagamento conduzidas pelo instituto britânico RBR (Retail Banking Research), especializado em automação bancária, mostram que tecnologias em evolução concorrem com o uso de papel moeda. Porém, conseguem substituir de maneira ainda mais eficiente o plástico emitido pelos bancos.


O diretor administrativo, Dominic Hirsch, e o analista sênior da instituição, Alex Maple, em entrevista ao Jornal Valor Econômico, afirmaram que, na verdade, o uso de papel moeda continua a crescer, em especial nos países em desenvolvimento. "No curto e médio prazo, claramente, o dinheiro não irá desaparecer e estamos a um longo caminho de isso realmente acontecer", afirma Hirsch.

Para o pesquisador do RBR, "muitas pessoas nos perguntam o que vai desaparecer primeiro, o dinheiro ou os cartões de crédito e débito. E nós enxergamos que os cartões definitivamente vão desaparecer antes do dinheiro". E o motivo para isso é que soluções como cartões virtuais para pagamento sem contato e outras formas de transferência de valores por meio de celulares tornam a experiência do usuário "sem fricção", ou seja, acrescentam conveniência e comodidade.

Por outro lado, de acordo com o diretor do RBR, no Brasil existem quase 60 milhões de desbancarizados. "Em países com um cenário como esse, o dinheiro provavelmente não vai deixar de ser usado tão cedo, ou irá entrar em declínio e eventualmente desaparecer em um horizonte que ainda não podemos enxergar."

Na visão do pesquisador, as pessoas que estão fora do sistema bancário têm resistência em confiar nas instituições. "Se você pensar no processo de pagamentos com cartão, o que acontece é que você coloca seu dinheiro em uma conta e confia que o dinheiro está seguro, mas o papel moeda é muito mais básico, instintivo e tangível", completa Hirsch.

Maple acrescenta que mesmo em países desenvolvidos, onde o uso do papel moeda apresenta uma tendência de queda, essa redução está ocorrendo de forma lenta e vai levar muitos anos para que o dinheiro físico efetivamente desapareça. "O que faz o dinheiro ser tão confiável é que, por exemplo, se ocorrer alguma catástrofe natural ou uma guerra nuclear, o dinheiro ainda será aceito como meio de pagamento. O dinheiro é um meio de pagamento confiável."

Conforme os pesquisadores, entretanto, cada vez mais as novas tecnologias ampliam sua ameaça tanto ao papel moeda quanto aos cartões físicos. "Das tecnologias hoje, de longe a maior ameaça ao dinheiro são as soluções móveis, por exemplo, Apple Pay e Google Pay, porque são um substituto direto [do pagamento físico]", afirma Maple.

O Apple Pay substitui os cartões de crédito e débito com o uso da tecnologia sem fio NFC (Near Field Communication, ou comunicação por proximidade, em tradução livre do inglês). O dono do celular precisa antes cadastrar seus cartões, processo feito com uso da câmera embutida. Feito isso, o usuário pode realizar uma transação apenas aproximando o smartphone da maquininha de cobrança e autenticando o pagamento a partir do sensor biométrico do iPhone.

O Google Pay funciona também por meio de NFC. A ferramenta opera em aparelhos com sistema Android, mas, diferentemente da solução da Apple, por enquanto aceita o cadastramento apenas de cartões de crédito.

Maple lembra que as cédulas hoje em dia são mais utilizadas em pequenos estabelecimentos comerciais e de serviços, como lojas de conveniência, transportes e bancas de jornais. "No futuro, é muito simples e provável que o dinheiro nesses locais seja substituído por um cartão 'contactless' [sem contato] ou uma forma de pagamento móvel."

Hirsch cita o exemplo da China. "Lá você tem o Ali Pay e o WeChat Pay, que são soluções de pagamento conectadas às redes sociais, sem utilizar estruturas de cartões, mas ainda ligadas aos bancos, pois a estrutura de crédito passa por essas organizações, porque você precisa colocar e tirar o dinheiro de lá", explica.

O AliPay contabiliza 700 milhões de usuários e responde por mais da metade do mercado de pagamentos móveis da China, que gira US$ 5,5 trilhões por ano. O WeChat Pay é a solução de carteira digital do aplicativo de comunicação mais usado na China. A empresa divulga ter mais de 1 bilhão de usuários.

Juntar as facilidades de pagamento e transferência de dinheiro aos recursos do aplicativo tem-se provado um modelo de forte apelo. Pelo menos no país asiático. Para o pesquisador do RBR, a solução mostra muita flexibilidade, pois permite movimentar valores de maneira quase instantânea entre os usuários.

"Há sistemas diferentes em outras regiões ao redor do mundo, mas até o momento nenhum país adotou esse tipo de pagamento de pessoa para pessoa como a China", avalia Hirsch. "A pergunta é se o que aconteceu na China vai ocorrer em outros países, ou se há algo diferente no mercado chinês", acrescenta.

Na experiência do Reino Unido, o que tem mudado a regra do jogo, segundo Maple, tem sido o advento dos cartões digitais sem contato. A forma de pagamento contactless se popularizou muito depressa, "simplesmente pela ausência de fricção", diz. Conforme o pesquisador, "se os meios de pagamento forem universais, confiáveis e sem fricção eles vão crescer e, reunidos esses aspectos, podem oferecer uma ameaça ao dinheiro e ao plástico, como já ocorre na China".


As investigações do RBR mostram que nem todos os países são iguais em relação à adoção das tecnologias. "Mas o que nós observamos é que, quando um mecanismo é muito popular em um país, ele torna mais difícil o ganho de popularidade para outros mecanismos", pondera Hirsch. O diretor do instituto cita novamente o exemplo da China e considera, devido à popularidade do Ali Pay e do WeChat Pay, existir dificuldade de outros meios de pagamento se tornarem bem sucedidos no país da Ásia.

Em algum momento no futuro, o dinheiro físico pode ainda ser substituído por soluções mais prosaicas, como um código QR. "Nesse caso, o blockchain teria um papel importante para possibilitar esse tipo de solução, devido às características de ser [um registro] único", aponta Maple.

Conforme Hirsch, o blockchain tem o potencial para transformar a maneira com que muitas processos funcionam na indústria, "mas, até este momento, não há uma alternativa real [de solução] dessa tecnologia ao uso do dinheiro e nós nem consideramos [criptomoedas como] o bitcoin, que é mais uma forma de investimento do que pagamento". Para o diretor do RBR, "a tecnologia blockchain pode ter um papel futuro nos sistemas de pagamento para substituir o dinheiro, entretanto estamos muito distantes dessa realidade".

FONTE: JORNAL VALOR ECONÔMICO

https://www.valor.com.br/financas/5939207/cartao-deve-acabar-antes-de-dinheiro-diz-instituto-britanico